暗黒透視術 ANKOKU TŌSHINJUTSU

Ankoku Tōshinjutsu têm seu significado literal dos termos 暗黒 Ankoku (escuridão), 透視 Tōshin (enxergando através de, clarividência) e 術 Jutsu (habilidade, técnica) ou seja, uma habilidade de enxergar na escuridão, e geralmente é romantizado e mistificado como um superpoder atribuída ao Ninja. Essa má e fictícia interpretação é corriqueira em temas e assuntos oriundo do universo Ninja. Nas tradições de espionagem ou Shinobijutsu, ao contrário da crença popular, não se trata de uma habilidade mística ou de um poder sobrenatural e sim um refinamento disciplinado da percepção humana, fundamentado na compreensão de como a visão se adapta e realmente funciona em condições de baixa luminosidade.

No 闇稽古 Yamigeiko (prática no escuro) a sensação de adentrar um ambiente penumbrado e desconhecido, um mundo de mistério é aterrorizante, mas esse horror é, na verdade, nosso instinto. Uma herança dos nossos ancestrais durante milhares de anos, pois a noite representava o momento em que os seres humanos ficavam mais vulneráveis contra ataques de predadores. O medo da escuridão é um dos temores mais antigos e universais da humanidade e embora o escuro seja apenas a ausência física de luz, nosso cérebro não o interpreta dessa forma simplista e é necessário praticar para dominar esse temor. Certamente que o sentimento de medo, em um grau não excessivo, é uma reação defensiva que protege o ser humano, um excelente sinal de alerta contra o perigo. Assim no Yamigeiko é treinado o corpo, a mente, os sentidos e intuição para se mover, lutar e identificar ameaças em ambientes escuros ou com total ausência de luz.

O olho humano naturalmente se adapta à escuridão dilatando a pupila e ativando células na retina chamadas bastonetes, que produzem um pigmento especial para captar a mínima luz disponível. Porém foram desenvolvidos vários métodos que ampliavam e auxiliavam esses espiões a alcançar a “habilidade de enxergar no escuro”.

O olho humano opera por meio de dois sistemas distintos. Em ambientes bem iluminados, a visão é dominada pelas células do tipo cone. Elas proporcionam imagens nítidas, detalhadas e ricas em cores, dependendo do foco direto. Esse é o tipo de visão do qual a maioria das pessoas depende em seu cotidiano. No entanto, a visão mediada pelos cones deteriora-se rapidamente na escuridão. Quando a luz diminui são os bastonetes que assume o controle da visão mediada. As células do tipo bastonete são muito mais sensíveis a baixos níveis de luz, mas não percebem cores ou detalhes minuciosos, em contrapartida, são excelentes para detectar contraste, forma e, o mais importante, movimento.

Alguns métodos descritos no livro “O Documento Secreto de Estratégia Shinobi” são: “evite olhar diretamente para fontes luminosas; não foque para tentar enxergar algo; use a visão periférica; ao sair de uma área iluminada para uma escura, previamente prepare-se fechando um dos olhos e então inverta, abrindo o fechado e fechando o aberto; e quando a mudança for repentina, feche os olhos e pressione com as palmas até que claridade interna desapareça.”

Um outro desses métodos envolve estreitar o campo visual, às vezes formando uma pequena moldura ou figura com as mãos e olhando através dela. Isso é feito para reduzir o excesso de estímulos visuais e acalmar a tendência de focar excessivamente. À medida que a mente se aquieta e os olhos param de buscar detalhes, movimentos sutis e contrastes tênues começam a se revelar.

Esse método de treinamento provavelmente foi juntamente com as crenças religiosas intrínsecas as tradições antigas, o percursor no uso de um Mudra que ficou caracterizado nesse contexto de vislumbrar o outro mundo, o método 狐の窓 Kitsune No Mado (janela da raposa), também conhecida como 狐の穴 Kitsune No Ana (Buraco da Raposa) ou 狐格子 Kitsune Gōshi (Grade da Raposa), é um gesto possuidor de forte 呪術 Jujutsu (propriedades mágicas) presente em lendas urbanas japonesas. Diz-se que os 妖怪 Yōkai (seres sobrenaturais, demônios e monstros) que espreitam no mundo humano perdem sua capacidade de causar problemas revelando sua verdadeira natureza se perceberem que alguém descobriu sua verdadeira forma. A Janela da Raposa é um método que permite aos humanos ver através dos disfarces desses demônios, abrindo uma passagem entre o mundo real e “outro mundo”, possibilitando que as pessoas evitem seus ataques ou obtenham vantagem para derrotá-los, que consiste em criar uma janela em forma de diamante com os dedos e olhar através dela. Acredita-se que esse método da janela da raposa já era amplamente conhecido desde o período 江戸 Edo, sendo mencionado também em “新板化物念代気 Shinpan Bakemono Nendai Ki”, publicado em 1805. A ilustração mostrada no início de texto foi feita pelo artista 歌川国丸 Utagawa Kunimaru, sugerindo que era um método bem conhecido na época.

Esse 手印 Shuin (Mudra) conhecido também em Chinês como 八卦指 Bāguà zhǐ ou Hakkeshi em japonês é uma poderosa técnica de dedo para comandar os Oito Trigramas, posicionar os Oito Trigramas ou realizar diversos rituais para afastar espíritos malignos, como um exorcismo, entre muitos outros usos.

O Ankoku Tōshijutsu, portanto, não trata meramente de ter o poder de ver no escuro, mas de se unificar com o ambiente e aguçar suas percepções. É um lembrete de que a visão não se limita aos olhos, mas é uma função de toda a consciência. Quando cultivada adequadamente, até mesmo a ausência de luz se torna um meio pelo qual a compreensão pode surgir.

Os passos específicos para formar o Mudra “Janela da Raposa” são os seguintes: Primeiro, estenda as palmas das mãos, junte os dedos médio e anelar, dobre-os para baixo e toque-os nos polegares, fazendo um gesto que representa uma “raposa”; em seguida, gire os pulsos, um para dentro e outro para fora, respectivamente, de modo que o dedo mínimo de uma mão toque o indicador da outra, e vice-versa; depois, abra os dedos médio e anelar, deixando-os trabalhar em conjunto com o dedo mínimo para pinçar o indicador da outra mão; finalmente, use o polegar para enganchar as pontas dos dedos médio e anelar da outra mão, e o Mudra estará completo.