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SHUHARI

 

 

 

Na cultura oriental é muito comum a ocorrência de trilogias, em inúmeras manifestações filosóficas, artísticas e religiosas. Há, em especial na cultura japonesa diversos acontecimentos dessa forma de manifestação.

Por exemplo, o 天地人 Tenchijin, que representa o céu, a terra e o homem; o 三密 Sanmitsu ou três segredos: pensamento, palavra e ação, sendo o primeiro caracterizado pelo 念力 Nenriki (poder mental), a segunda pelo 呪文 Jumon (poder da palavra) e a última pelo Ketsu In (poder do gesto). Muito utilizado nas artes marciais, há o 三心 Sanshin (espírito, corpo e mente). Existem, ainda, as três distâncias: 遠間 Tôma (distância longa), 間合いMaai (distância correta) e 近間 Chikama (distância curta), bem como as três fases do treinamento, o 型 Kata (forma), o 変化 Henka (variação) e o 乱取りRandori (combate), sendo o primeiro, por sua vez, também dividido em três fases, 初伝 Shoden, 中伝 Chûden e 奥伝 Okuden ou 上 Jô, Chû e 下略之巻 Ge Ryaku No Maki.

O aprendizado do Budô, conforme a tradição, também é dividido em três fases, é chamado de 守破離 Shuhari:

守 Shu (preservar) – a tradição é mantida pelo contínuo estudo do passado. Através do 伝承 Denshô (manuscritos das escolas) e 型 Kata (forma), das experiências de batalhas passadas, aprende-se conceitos importantes, que servirão como fundamentos (基本 Kihon) para as técnicas que serão aprendidas posteriormente. O adepto estrutura sua base copiando seu mestre.

破 Ha (quebrar) – com o progresso do treinamento, vai sendo diminuída a ênfase, dada na primeira fase, às formas pré-estabelecidas, adquirindo-se maior espontaneidade. É treinado o 変化 Henka: o conhecimento do passado é agora aplicado a situações não determinadas, não ensaiadas. Há, desse modo, a quebra da forma. O adepto inicia uma auto-analise e questionamento.

離 Ri (descartar) - Finalmente, atinge- se o domínio; descarta-se completamente a forma, com a descoberta do 幽玄の世界 Yugen No Sekai (o mundo sem forma). Em relação às fases do treinamento, esta pode ser definida como a fase da experiência. Através dessa, atinge-se um nível no qual se consegue antecipar uma situação em um combate, permitindo assim a antecipação da defesa ou do contra-ataque.

Podemos também classificar as etapas que um adepto passa na prática do Taijutsu. Inicialmente, trabalha e “organiza” seu corpo com exercícios, preparando-se assim para iniciar a técnica do 基本 Kihon. Dominando a base, o praticante passará a preparar-se para assimilar as técnicas seguintes, adaptando-as à sua personalidade e particularidades físicas.

As etapas seguintes podem ser comparadas ao 五大 Godai (os cinco elementos da natureza, de acordo com a filosofia oriental):

地 Chi (Terra) – É a etapa que se concentra no desenvolvimento estrutural, trabalhando a base (Kihon) e posturas (構えKamae). A atenção, nessa fase, é voltada à maneira como o corpo “responde”, e qual a sua capacidade. No principiante, isso é mostrado através de seu nível de dificuldade de esquivar-se (捌き Sabaki) de um ataque.

水 Sui (Água) – Nessa etapa, é observada a capacidade de Sabaki, bem como a confiança na aplicação do Kihon. Maior atenção é dada à resposta do praticante à ação de seu atacante, com destaque à aplicação de defesa angular e contra-ataque.

火 Ka (Fogo) – Nessa fase é observada a habilidade de direcionar totalmente a energia ao combate, com controle e eficácia. Esta habilidade é manifestada pelo adepto pela tomada de iniciativa, adiantando-se no ataque.

風 Fu (Vento) – A habilidade observada nessa etapa é a facilidade para controlar o centro de energia relativo a cada situação de combate, e também a habilidade de dominar o oponente com movimentos “fluidos” e evasivos. A habilidade do vento consiste, em outras palavras, em aproveitar os melhores momentos de ataque, mantendo-se ao mesmo tempo fora de alcance.

空 Ku (Vazio) – Para chegar nessa fase o praticante deve obrigatoriamente ter total domínio das quatro etapas anteriores, além de já ter atingido o 三心 Sanshin (estado de harmonia entre corpo, mente e espírito). A partir daí, são treinados o domínio do 識 Shiki (consciência) e 気 Ki (energia); é o momento do praticante encontrar seu próprio “mestre interior”.